#MAR DAS ERMAS CUMEADAS# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA



Só! — Não o é quem na dor, quem nas fadigas, tem um laço que o prenda ao fadário. Uma crença, um desejo... uma utopia e inda um cuidado... Mas passar, entre turbas, solitário, isto é ser só, é ser abandonado, isto é ser desolado! isto é ser feliz, alegre, contente. Desventura ou delirio?... Desvario ou inconsciência? E se um demônio lhe dissesse que esta vida da forma como vive e viveu no passado você teria de vivê-la de novo? O que procuro, se me foge, é miragem enganosa, se me vai além, é oásis de falácias, é deserto de verborréias, se me espera, pior inda, espectro impuro...


Não se destrói a ilusão do que se é, senão sendo outra coisa – ou seja, outra ilusão. Porque só é imutável verdade a verdade de se estar morto, de nada mais ser, de apenas me tornar cinzas, das cinzas vim, para as cinzas vou. Quem sabe uma simples gotícula de cicuta inspirasse-me a verdade da morte, e com ela criasse poema universal, perpétuo! A verdade da vida, absoluta, irredutível, é a verdade que habito com as palavras que a dizem ou a são e as dores que me doem e a alegria que me ilumina, a felicidade que me a-nuncia. Vendo o mar das ermas cumeadas, con-templo as nuvens vespertinas, que parecem fantásticas ruínas, ao longo, no horizonte, amontoadas...


Atento a essa vida, olho-a a acontecer sem que um instante observo que olho. Puro espectador, o que me ec-siste é o espetáculo e não aquele de mim que ao espetáculo assiste. Sinto como a voz que res-pondesse ao que em mim não chamou nem está nela.


Ser de sentimentos re-versos na in-versão do caráter e da dis-posição do ser às ridículas condutas e posturas do que é eternamente visto e sentido como a perfeição do mal e suas diretrizes e veredas para o arbitrário, gratuito, sobretudo para os despautérios todos da viperinidade.


#RIODEJANEIRO#, 15 DE JANEIRO DE 2019#

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