A QUE DISTÂNCIA A PALAVRA?# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: POEMA



Imagem fia a campina em sombra.
Batalhas executam inimigos.
Alaridos arrastados.
Desatrelada fúria carniceira devora vazias hipocrisias.
Tragadas a ossos coados.
Arranque crispado cerra imagens.
Afogadas.
Mordidas aragens de vidro.
Cabelos cortados dum golpe.
Restabelecem sepulturas degoladas.
Campo e morte brotam angustiados do palco nu, ermo.


Houve um dia em que atravessava esta rua
Pensando alegremente no futuro, grande e nobre
É sempre viver, viver instantes e momentos,
Imaginar tudo do que nada sei, nada do que com-preendo,
Fantasiar visões das coisas invisíveis, sons de silêncio,
Canções de solidão, baladas de angústia,
Olhar a imagem atrás do espelho, dizem a imagem ter alma.
Hoje, descendo esta rua, não estou indo a lugar algum,
Não penso alegremente, não penso tristemente,
Nem sei se penso, se o pensamento me pensa pensando,
Desejo dizer de longe vejo a vida, a que distância a palavra?
Quero falar o meu olhar olha a extensão da rua,
O que o verbo dos sentimentos a perpassaram-me
Pronuncia de lapsos da memória, de ausências do ser
Nas fímbrias do não-ser?
Tenho a impressão de que parte de mim sustenta os meus passos,
Outra parte está parada na esquina da rua ao longe,
Observa de um lado e de outro, que direção seguir não o sabe,
A res-posta está além do espaço, além da alma dos desejos.
No sono do vento? Na vigília dos pingos de chuva?
Não está ventando, o ar parado, não está nem garoando.


O que era eu, quando pensava alegremente no futuro,
Atravessando a rua, sentindo a vida distante?
O que sou eu que nem sei se penso, o que sinto,
Se ec-sistisse eu, não sei se ec-sisto,
Soubesse de soslaio a existência habitando-me o "eu",
Vestígio do que não fui,
Restos do que não sou?
O vestígio é pretérito, é passado,
Se algo dele re-colhesse, seria menos que ele,
Seria nada do que lhe reside,
Os restos de mim agora são o presente, o aqui-e-agora,
Concatenar-lhes os verbos, seria estilo ou modo
De re-conhecer-lhes, saber-lhes?
Vou descendo a rua deserta,
Quiçá vire alguma esquina antes de chegar-lhe ao fim,
Ao menos andando, andando, sei que ando, troco os passos,
No quarto, sentado na cama,
Estaria reparando nas coisas vestindo nadas,
Sono de ser, sem Diazepan
O outro que atravessava a rua, pensando alegremente no futuro,
Quiçá soubesse as trilhas de sua imaginação, quimeras,
O eu que desce a rua, sem saber se pensa, se é pensado,
Noção alguma tem do que vive, do que vivencia,
Vivendo não sabe ter vida,
Que resta, então?
A renúncia por estilo,
A con-templação da rua deserta por destino?


#RIODEJANEIRO#, 02 DE JANEIRO DE 2019#

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