ÀRVORES ECOAM NO DESERTO# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
A inocência
tem necessidade da areia e das pedras. Quando a pedra, afligindo a carne e os
flancos sensuais de morna lassidão, impedir de desejar e arfar meu coração e
meus pés de seguir a trilha aventurosa, a sepultura que tem seu confidente em
mim – porque a sepultura sempre há de compreender e entender o artífice das
palavras –, dir-me-á sussurrando "Nas insônias sepulcrais das noites sem
fim, na sombria solidão de seu quarto, você acordava com a embriaguez já
minorada ou finda..." E o homem des-aprendeu o convívio com essas coisas.
Pelo menos é nisso que tenho de acreditar, porquanto se entrincheira neste
lugar singular onde dorme o tédio. Que tentação a de identificar-me com as
pedras, unir-me intimamente a esse universo ardente e impassível que desafia a
história e suas agitações!
A solidão
ferve. Árvores que ecoam no deserto e silencioso vácuo. O isolamento sem
excesso. Um ruído mudo e cego do qual não se retira nem mesmo a sua mudez e
cegueira. O exílio cheio dos brilhos acobreados do sol quente e das sombras
contorcidas e trêmulas das árvores, folhas, galhos. Olho para os dedos e as
mãos. Desejos infantis afloram com lágrimas guardadas. Cresce um grande lago de
tristeza e desamparo, sobre o qual escorre e corre o entoar seco de minha
libertação. O velho mundo barroco que me segue a nostalgia, a melancolia.
Conheço os meus dedos, mãos, reconheço-os, e, ao mesmo tempo e instante, na
dobradura do horizonte, sinto-os distintos, como se capazes fossem de uma
enorme atitude, em grandes ações e gestos, em que a vontade e o querer não
interviessem, não interferissem.
#RIODEJANEIRO#,
14 DE JANEIRO DE 2019#



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