AUTOBIOGRAFIA DE UM ESCRITOR# GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA Manoel Ferreira Neto:
Sou a idéia
de uma coruja
Pousada
sobre uma galha de árvore,
E quando sou
a idéia,
Sou a
coruja.
Sou composto
de traços e passos
Ensombrecidos
cantos, recantos e auroras.
Sombrios
sítios, crepúsculos, cavernas,
Ensombrecidos
bosques, alvoreceres, abismos
Entardecidos
recônditos, interstícios, angústias, náuseas.
Anoitecidos
desejos, vontades, utopias.
Sou
lembranças de sonhos perdidos nas curvas do tempo,
De
esperanças esvaecidas nas molduras paisagísticas
Que
éter-izam horizontes, que perpetualizam os alhures de confins,
Sou
recordações do raio de luz, do sibilo de vento,
Sou memórias
de instantes de prazer, momentos de dor
Com que
apagam
Na noite a
luz do abajour que acendo.
Sou a neve
que cai nos telhados de choupanas solitárias
Sou o
silêncio que brota da névoa que rola
Sou
obstinação, determinação, insistência, persistência
Sou medo,
insegurança
Sou
circunspecção, introspecção, prospecção
A lenha que
re-colho para colocar na lareira
A chama do
fogo que rasga a escuridão.
Sou composto
de marcas e cicatrizes;
Uma face e
um símbolo, um rosto e um signo,
Um semblante
e uma metáfora,
Uma
fisionomia e uma metafísica,
Uma imagem e
uma perspectiva,
Uma silhueta
A poeira das
ruas de minha terra-natal
Na sola de
meu sapato,
Poeira que
vou deixando nos pretéritos do tempo
O destino é
a cidadania do mundo
Minhas mãos
postas ao céu, ao que trans-cende,
Sem rezas,
sem orações, sem dogmas e preceitos
Meu punho
erguido, rebeldia insolente,
A palavra em
riste, revolta,
Cruz de meu
inferno,
Um murmúrio,
um sussurro, um grito
Um berro
altissonante,
Uma agonia,
um desespero, um desconsolo
Lágrimas que
descem a face da contingência
Sorriso
enviesado que se esboça frente ao in-audito
Brilho, por
vezes frio, por vezes brilhante
Diante da
solidão do silêncio.
Amando, nada
sou
Intrans-itivo
verbos com a pena das desejâncias do Ser-Amar
Regencio
inauditos, silêncio e solidão com a tinta das Querências do Sublime, desejanças
da leveza do ser,
Amando, amo
e amo amando
Inspiro-me
de sentimentos que se a-nunciam longínquos nos recônditos da inconsciência
Sensibilizo-me
com a sensibilidade que reina, impera e vigora nas alamedas
Tapeadas de
silvestres flores de ipês amarelos.
Evangelizo-me
com as lâminas espirituais dos encontros e des-encontros do sublime.
Sou composto
de estrume e de solo íngreme;
Sou rumores,
sou gemidos, sou suspiros,
Sou
ruminante de ouro e riso
Nos caminhos
de luz nas trevas
Sou pés
trilhando ruas e avenidas,
Sou folhas
mortas que não voam,
Sou pássaros
imóveis que não trinam,
Sou águas
sombrias que não correm,
Sou pernas
varando o tempo,
Sol na
cabeça, no rosto e cruz suja de terra,
Fardo
colorido, destino branco e preto,
Sina, saga,
destino sem cores e brilhos,
Sou o
aqui-e-agora, o que há-de vir,
A hora que
se apresenta e se esvaece
Mas retorna
com novas energias, forças,
Sou minutos
que passam como asas
Projectadas
no espaço febril de minha insônia
Sou ouvidos
de línguas estrangeiras,
Sou voz de
olhares à espreita do ser e tempo,
Sou sons
agonizantes que aos poucos se extinguem,
Sou a
certeza do vazio que delonga,
Sou o abandono
que me envolve
Como as
vagas ao corpo conquistado,
Ímpeto de
lábios, sorrisos à mercê das coisas hilárias,
Fúteis,
ridículas, puros nonsenses,
Esgares de
tristeza e angústia à revelia das dialéticas
Da vida e
morte,
Do bem e do
mal,
Pele,
pensamentos, poros, pelos...
Sou uma
espera, fantasia, ilusão,
Sou um
movimento, sonho, utopia,
Um pingo de
chuva, um raio de sol,
Orvalho na
madrugada, neblina que cobre a montanha
Uma lufada
de vento, uma luz de relâmpago,
Fumaça do
cigarro que expilo, con-templando, vislumbrando
As ondas do
mar, a gaivota que sobrevoa as águas,
Brilho da
lua bolinando a escuridão da noite,
Cintilância
das estrelas seduzindo o universo,
Sou a mão
que pinta de cores semi-vivas a tela de desejos,
Sou a
palavra registrando no dito e inter-dito o espírito da vida,
Sou a nudez
de corpo exposto às primeiras luzes da manhã
Sou tear na
madrugada fabricando vida plena.
Sou capim do
pasto e as ovelhas.
Sou peixe e
água de rios, córregos e lagoas;
Sou espaço e
a borboleta, sou horizonte e a águia
A pomba e o
condor...
#RIODEJANEIRO#,
14 DE JANEIRO DE 2019#



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