#GÓTICAS REVEZES DO SUBLIME# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA



Vivemos no finito. Tudo o que tocamos é limitado. Mas o nosso desejo é infinito, é ilimitado. Então, para sermos fiéis aos apelos de nossa interioridade, é preciso manter essa abertura infinita. É mergulhar, captar a nossa sintonia com a totalidade, é sentir que somos chamados ao ser pleno, e não ao pedaço do ser. E tudo o que se move em similar balada, canção de amor cujas palavras, quais pétalas, vão caindo sobre o olhar de quem fechou os olhos, sem ler mais, cujo estilo segue traçando linhas de letras, góticas são as revezes do sublime, qual o orvalho cai e o som da música entoa nos ouvidos a liberdade e a ousadia de criar. Uma torre se erguerá do fundo do coração e eu estarei à borda, do abismo da alma subirá os sons da sublim-itude: onde não há mais nada, ainda acorda o indizível, a dor, de novo o mundo, ainda desperta o in-audível, in-audito.


Não vejo nenhum ser humano até onde minha vista alcance. Nem ao menos escuto o vento. As folhas das árvores balançam sem som. No infinito salpicado de luzes, no inverno, quem sabe ao in-verso dos sonhos, quiçá aos re-vezes dos sonos, a noturna essência de luzes das estrelas e da lua fornece alento ao viver, sustenta os caminhos a serem seguidos.


Ainda uma coisa, só, no imenso mar das coisas, e uma luz depois do escuro, um rosto extremo do desejo obscuro exilado em um nunca-apaziguar, ainda um rosto de pedra, que só sente a gravidade interna, de tão denso. Esquecer que existe um tempo, não contar os dias da vida... No silêncio entrarei, ao mundo das sombras me entregarei, contente, saltitante, ainda que as notas do meu canto não me acompanhem esta canção de hoje, acompanhem, que uma vez ao menos como os deuses vivi, nem mais desejo. Aqui e agora são performances de um baile, baile de um tempo que res-plandeceu de buscas e glórias, a roda-viva da in-fin-itude continua girando, o sonho alça outros vôos, bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca.


Com que sede eu bebi!
Mas eu também estava pleno de mundo e, bebendo, eu mesmo me transbordo.


(**RIO DE JANEIRO**, 03 DE JANEIRO DE 2019#

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