GRAÇA FONTIS PINTORA POETISA ESCRITORA E CRÍTICA LITERÁRIA COMENTA A PROSA #AUTORETRATO#
E há uma
tentativa talvez frustrada de escamotear a face onde apesar do eminente brilho
incidindo sobre si na esteira da vida, permanece o lado oculto, irrevelável...
escuridão intransponível aos espectadores nessa aparente clareza de cristal
lapidado na rebeldia! Maravilhoso texto... Parabéns meu Escritor favorito!!!
Graça Fontis
Aí é que
está o "psilone" da questão: por mais que o escritor seja
transparente nas suas verdades, idéias, pensamentos, patenteie a sua face
munido de todos os seus re-cursos de linguagem, estilo, forma, permanece sempre
o lado oculto, irrevelável, o seu silêncio está presente por sempre. Nisto,
consiste a eternidade da obra, do escritor; assim ambos jornadeiam pelos tempos
a fora, mesmo que críticos ao longo do tempo des-cubram e des-velem dimensões
inda mais profundas.
De
excelência o comentário. Parabéns! Beijos no coração, Amor!
Manoel
Ferreira Neto
AUTORETRATO#
GRAÇA
FONTIS: PINTURA
Manoel
Ferreira Neto: PROSA
"Entenda
Há fazenda
que é renda
Enquanto
outras são sendas.
E tantas outras só lendas"(Sonia Gonçalves)
E tantas outras só lendas"(Sonia Gonçalves)
Meus
momentos de felicidade foram bruscos e impiedosos. A vida também. Compreendi,
então, que sou nascido desta terra, onde tudo é dado, para ser tomado de volta,
onde a memória se esvaeceu para dar lugar à inconsciência, imiscuir-se no
vazio. Nessa abundância de sentimentos profusivos, de emoções vorazes e
voluptuosas, de ideais secos e molhados, a vida imita a curva das grandes
paixões, repentinas, exigentes. Con-templo o que é mister de silêncio, choro
comigo a desdita esmagadora. E como é dilacerante ec-sistir con-templando em
silêncio o eterno adeus, as faces que desaparecem no horizonte imóvel.
Solitário,
isolado, vejo-me cercado de serras indevassáveis.
Diante de
mim abrem-se abismos onde se precipitam as torrentes formadas pelas chuvas das
tempestades, onde os raios solares incidem-se nas pedras, à soleira, sombras.
Desde as montanhas in-acessíveis, para além do deserto que nenhum pé humano
calcou, até a extremidade do oceano des-conhecido, dobra o espírito daquele que
cria, re-cria, in-venta, re-faz o eterno das solidões, re-produz o ab-soluto
dos verbos de sonhos, re-compõe o divino das metafísicas utópicas,
incessantemente, e re-jubila-se a cada átomo de pó vivificado graças à sua
palavra, graças aos vestígios silábicos de desejos de êxtases e glórias,
prazeres e conquistas, resquícios monossilábicos, cujos monólogos re-velam o
im-possível da poesia atormentada, da prosa angustiada, onde o nada e o tempo
se degladiam, a náusea e as con-tingências se debatem, o vazio e o ser se batem
de frente, dos desejos e vontades invisíveis e inexpressíveis, visões que se
contradizem na minha alma. O ar palpita como se um cabeça-de-fogo(chapinha)
voasse e eu fecho os olhos - tão grande é a paixão que me queima. Envolvendo-me
na sua ânsia mortal, sinto o meu coração bater.
Há quem diga
pensar eu que somente sozinho no quarto, no meio dos livros, encontro as
palavras para saciar a sede de conhecimento, a fome de realização como homem e
indivíduo, des-velo as semânticas e linguísticas, janela de meu ser. Ah, de que
terrível noite nasceste, ó desejo, de que fonte de amargura, ó luz crepuscular!
Lábios que se abrem ávidos para os turvos vinhos da terra, para a maldita
memória dos ósculos sem respostas e de tantas sombras que se misturam nesta
face humana, qualquer coisa que lhe empresta um ar alucinado.
Não sei
mesmo se estas palavras são verdadeiras, se elas realmente dizem de algo sério
e sincero, de algo sensível e trans-cendental ad-jacente ao inter-dito
in-audito das nostalgias, melancolias e saudades do tempo, do ser, do não-ser,
onde me desfaço do verdadeiro de mim - doado ao obscuro que sempre traça ao que
me faço. Doo a minha teia, e doando o fogo que me ateia, doo aquilo que não
nego, que lúcido em verde me incendeia, que me empalidece, torna-me em rosa ou
fogo. Doo de mim o que me sobra, não a obra, mas o cego.
Contudo, sei
que, enchafurdado no meu canto, sou livre para atingir os liames do espírito e
da alma, tecendo sentidos e símbolos para o retorno à paz, à felicidade, antes
disso até, à minha vida quotidiana, confeccionada de medo e cor-agem, cor-agem
de vislumbrar o nada com o lince da imanência, medo de perder-me nas ausências
da im-perfeição, o que me é in-inteligível. Tenho medo de ser fraco. Sinto as
criaturas dormindo, e minha voz como uma alfanje decepando apenas o silêncio
que avoluma. Na vasta solidão silenciosa, um outro ser misterioso me habita. Do
alto de minha solidão, de minha lucidez, abrangendo com o olhar, para além do
riacho, desde os vales férteis até as colinas, ao longe, vejo em torno de mim
tudo. Vejo a minha imagem levantar-se enorme, hirta num mar de negras chamas,
luzindo como o sinal de meu degredo, obstinada - oh, cruz, do meu inferno.
Creio ser
sobremodo percuciente, sobremaneira lícito afirmar que recuso solenemente a
largar mão de meu orgulho, porque, a meus olhos não seria uma atitude, mas um
vício de meu caráter e personalidade. Ademais este orgulho incendiou desde
sempre a liberdade de nada ser, e sendo o nada ec-sistir à margem do menor
esforço, os olhares moldarem-me à imagem e semelhança do outro. Ao longo da rua
que a noite obscurece irei descendo, ouvirei a voz que exprime a vida.
O sinal da
maturidade seja uma extraordinária vocação para as humildades fáceis. Mas é,
sobretudo, uma precipitação de viver que chega às raias da extravagância, um
desejo de abraçar o mundo com todas as forças que chega a intensificar ainda
mais todos os orgulhos.
#RIODEJANEIRO#,
13 DE JANEIRO DE 2019#



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