NO VERDOR DA PLANA DISTÂNCIA...CÔNCAVA/RE-VERSA PROXIMIDADE# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA POÉTICA
Epígrafe
"Escrever?
"Não quero escrever...: Sentir." (Manoel Ferreira Neto)
Vejo, sinto
o porto visto das águas, é bom tomar distâncias, elas esplendem os linces do
olhar, a alma voa mais livremente.
Neblina,
chuvinha miúda, garoa perpassando instantes e momentos, floresceu, sem cessar,
todo um verão na árvore obstinada, noite e dia, e se soube futura doação diante
do espaço que o acolhia, esperando por mim retornar à casa-do-ser, câmeras não
filmaram as performances de um livro em mãos, ensaiando leituras e etiquetas de
um homem de letras, performando as palavras, voaram tempos e ventos, não
ensaiando leituras, mas traçando as linhas de dialéticas, contradições, sonhos,
esperanças, utopias, em sin-tonia com os amores e ressentimentos, ad-mirações e
mágoas, sinfonia de um silenciar as palavras, des-abrochem livres as metáforas
e metafísicas das dores e sofrimentos, mas aqueles momentos a memória re-colheu
e a-colheu.
Posso viver,
hoje, os caminhos, como se meu sorriso não fosse forçado. Posso falar com o
coração sem o medo de silenciar a boca. Posso fazer gestos, como se meus braços
fossem velas ao mar, prontas a envolverem luas e estrelas, universos e
horizontes. Posso soltar a voz e olhar de frente para o futuro, para o
afluir-a-ser, como um irmão do tempo, amigo íntimo do ser.
Ainda que
calejadas pelo remo, minhas mãos trazem a textura de pétalas finas das rosas,
pois, se se deram aos motivos do coração, aos estilos e linguagens do sangue
perpassando as veias, pode haver algo mais sensível, mais suave de se sentir
íntimo, de afagar no peito? Posso olhar o futuro sem as costas amarradas a
nada. Posso viver sem ter que provar nada a quem quer que seja, de explicar
isto ou aquilo, o perdão que a vida me concedeu. Posso não me sentir à vontade
em companhia de pessoas, não encontrar palavras para dizer, conservar-me em
silêncio, não me compreenderão, entenderão, mas conheço bem esta ausência de
comunicação, ando em silêncio, mudo, mas performo a ec-sistência comungada à
interioridade. Sem justificar meu silêncio ou meu canto quando alguém apontar
seu dedo em direção ao meu olhar, dar-lhe-ei minhas mãos, pois sei que os
infelizes são os mais dignos de compaixão.
Ouvir daqui
que a maioria fez da vida uma canção... Imagens que a plenitude do dia dá a ver
aos homens, no verdor da plana distância... Corre do alto rochedo a pino o veio
puro, então em belo pó de ondas de névoa desce à rocha lisa, e acolhido de
manso vai, tudo velando, des-velando, em baixo murmúrio, lá para as profundas.
Sinto, ouço, alegro-me, choro, revejo... todo o verbo que quiser, nessa
passagem de noite, sentado a uma pedra, olhando a luz da lua prateada incidida
sobre as águas. Desejo a única Palavra realmente “séria”, da qual todas as
outras participam, à medida em que salvam, fazem a verdade. Com longo olhar
erscruto a sombra, perscruto o entardecer, que me amedronta, que me assombra, e
sonho o que nenhum mortal há já sonhado, e con-templo o que ninguém há já visto
de soslaio no re-canto da alma, mas o silêncio amplo e calado, calado fica, só
fala quando a palavra a-nuncia seus verbos; a in-quietação quieta, mov-ente; só
tu, palavra única e dileta...
Estou
pronto, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, ainda que éresis
de solidões estrangeiras, iríasis de nostalgias viandantes, possa reconciliar
com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar, um ao outro sintetizar,
sin-cronizar, sintonizar; como se algo faltasse para o fim, para o olvidado do
tempo, que nome no seu bolso já vazio há por achar? Procuro, alfim, enxugar dos
lábios o fastio: os olhos, sob a pálpebra, in-vertidos, re-vertidos, olham só
para dentro, doravante.
Silêncio:
"Não quero falar..." Liberdade íntima, sem palavras, sem
linguísticas, sem semânticas. Voz, sons misticos a-nunciando-se livres, pureza
de notas, ritmos, melodias que nos verbos do ser habitam.
Escrever?
"Não quero escrever...": sentir.
#RIODEJANEIRO#,
03 DE JANEIRO DE 2918#



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