HEI MONTADO O CORCEL DO AGNOSTICISMO# Manoel Ferreira Neto: DESENHO/GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Quero que o
pendulum do relógio suspenso na parede silencie as batidas no instante supremo
de minhas angústias, tristezas, desesperos, anunciando a solidão de minha alma
nos auspícios da colina, observando o entardecer, o vazio de meus pensamentos,
idéias sobre o mundo e suas viperinidades e pernosticidades.
Quero que a
areia da ampulheta na passagem dos segundos faça-me sentir profundo, abismático
nada haver-de retrogradar, postegar, protelar o nada que resplende no topo da
montanha, eivando-se dos raios numinosos do sol, a nonada que esplende suas
centelhas, suas prospectivas de passagem à travessia para o Vedas, para o SER
tão Veredas, Bosques, Sendas, Desertos, mas o Ser ao longo do Tempo se
revelando inda mais promissor, ainda mais a VERDADE latente e manifesta, o
sonho é a fé na Vida.
Quero que os
pratos da balança da moral e ética mostrem-se-nos em toda a glória,
equilibrando-se nas conjunturas das ideologias e dos interesses, das corrupções
e dos tráficos de influências, de drogas, de contrabando, e que os valores e
virtudes da humanidade do ser não sejam protelados para a consumação dos
tempos.
Hei montado
o corcel do agnosticismo, e não posso admitir que as rédeas me escapem das mãos
e que o corcel me leve para onde bem entenda. Estou pronto para travar a
batalha. Hei efetivado os liames entre a bastardia e a rebeldia, e que os
ácidos críticos da revolta corroam os dogmas e os princípios da burguesia, os
preceitos, jogos de interesse da Constituição e do Evangelho.
Quero que os
amores mais trágicos do que risíveis não desçam nunca a níveis profundos de
comunicação, e por isso sejam vulneráveis a qualquer situação que coloque sob
um novo ângulo as pessoas amadas.
Quero que as
contra-dicções além do bem e do mal negligenciem os detalhes insignificantes do
exterior, explodindo num riso tão inconveniente que me veja obrigado a retomar
a palavra, as dialécticas aquém da liberdade e do rebanho de parasitas ponham
em evidência um presságio anunciador de advento de alguma coisa grandiosa e
fora do comum, que superem meus sonhos.
Quero que os
sinos no domus da igrejinha repiquem no instante da comemoração da
Independência do Brasil, os botequins não fechem as portas na passagem da
marcha do exército, comemorando a Liberdade e a Consciência do Compromisso e
Responsabilidade com a Vida, com o povo, com os homens, o público presente
entre em completo desvario e saia pulando carnaval, gargalhando doidivanamente.
Quero que a
massagista da academia avise-me que a banheira está cheia, saia exibindo orgulhosamente
o umbigo e estenda-me com prazer na banheira, diga-me ela em tom de voz sereno,
sorrindo, que pareço ter o corpo muito sensível. Quero assistir pela televisão
o Presidente da República dizer que jamais houve na história um governo que
tenha se entregue por inteiro às causas populares, à moral e à ética da Nação
em nome da Dignidade e da Honra, e a massagista dobrando-se de tanto rir para
não chorar de desespero.
Quero que o
escritor quebre a expectativa do leitor, afirme pelo avesso e devolva a auto-imagem
distorcida, ressaltando o grotesco de uma sociedade e seus membros, conjunto
que se pretende um modelo a ser cultuado.
Agora estou
com fome, fome inteira que abriga o todo e as migalhas. Quem bebe Ballantine´s
com os olhos toma conta do leite. Quem lento bebe o leite, sente o Ballantine´s
que o outro bebe.
(**RIO DE
JANEIRO**, 13 DE OUTUBRO DE 2017)



Comentários
Postar um comentário